
A Fala do Presidente
José Mendes de Oliveira
27 de junho de 2026
A fala do presidente da república brasileiro, vazada durante reunião do G7 em junho de 2026, em que declara nunca ter sido um esquerdista - expressão muito familiar às alas conservadoras quando pretendem criticar a radicalização nos movimentos das esquerdas -, não surpreende porque não é inédita. Não foi a primeira vez, e talvez não seja a última, que o mandatário se opõe a ser chamado de representante da esquerda, socialista, comunista ou qualquer outro designativo que o aproxime de algo além do progressismo liberal[1]. Descartada a surpresa, resta um outro aspecto do discurso que merece apreciação um pouco mais cuidadosa e, se possível, colocado sob a luz de alguma interpretação histórica. Trata-se da afirmação de que o mundo não é de esquerda, mas sim de centro[2].
A afirmação não é uma verdade absoluta, mas também não é um equívoco absoluto. Para esclarecermos esse imbróglio, vale a pena resgatarmos as profícuas análises do sociólogo Immanuel Wallerstein (1930-2019), o professor que se consagrou por estudar em profundidade as transformações do sistema-mundo moderno e da economia-mundo capitalista. Especificamente, merece destaque, para a finalidade de nossa argumentação, a consideração de que entre 1848 e 1968, destacadamente na Europa, o liberalismo conseguiu domesticar tanto o conservadorismo como o radicalismo mais à esquerda, transformando-os em seus avatares.
Em outras palavras, o sistema conseguiu administrar a pressão por mudanças revolucionárias por intermédio de um programa político baseado em três medidas: sufrágio universal, Estado do bem-estar social e identidade nacional combinada com o estímulo ao racismo ou xenofobia. Essas alternativas antirrevolucionárias escoravam-se ainda na esperança dos movimentos de esquerda em conquistar, por intermédio do Estado e de ações incrementalistas uma situação mais justa para as classes oprimidas. É dessa forma que se estabelece o que Wallerstein define como a via media liberal ou a opção pelo centro em oposição ao que seria a direita e a esquerda.
“A via media liberal prevaleceu politicamente. Suas crenças se tornaram a geocultura do sistema-mundo. Ela estabeleceu as formas das estruturas estatais nos Estados dominantes do sistema-mundo e o modelo que os outros Estados deveriam, ou ainda devem, aspirar. E o que de tudo teve mais consequências, o liberalismo domesticou tanto o conservadorismo como o radicalismo, transformando-os (pelo menos entre 1948 e 1968), de ideologias alternativas, em variantes menores, avatares, do liberalismo. Através do seu programa político tríplice de sufrágio universal, Estado do bem-estar social e criação de identidade nacional (combinados com racismo orientado para fora), os liberais do século XIX efetivamente acabaram com a ameaça das classes perigosas na Europa. Os liberais do século XX tentaram um programa semelhante para domesticar as classes perigosas do Terceiro Mundo e por um longo período pareceram estar se saindo igualmente bem”[3].
A adoção do centro não elimina os antagonismos e polarizações do sistema-mundo presidido pela economia capitalista, que decorrem da própria tendência de busca permanente pela acumulação do capital. Portanto, a tentativa de administração racional da mudança social, inclusive mediante a ação de pessoas consideradas competentes ou de uma tecnocracia ocupada com a gestão das políticas públicas[4], não elimina a luta de classes, apenas a contorna para evitar abalos transformacionais drásticos na estrutura do sistema. Da mesma forma, o discurso de valorização da democracia não impediu, e não impede, que se lance mão de alternativas autocráticas, sempre que se julgar necessárias, a exemplo do que se viu dentro da própria Europa nas décadas de 30 e 40 e posteriormente nos países periféricos.
Entre os anos de 1945 até 1968, vários movimentos nascidos nas esquerdas, inclusive baseados no discurso antissistema, alcançaram o poder com pautas incrementalistas e reposicionamento político mais ao centro. Essa fórmula se esgota a partir de 1968, quando fica evidente a decepção com as alternativas de mudanças mediante a conquista do poder ou ocupação do Estado. Desde então, o consenso liberal passa a ser questionado ao ficar evidente que as antigas esquerdas, como avatares do liberalismo, são incapazes de cumprir com a promessa de redução das polaridades econômicas e sociais da economia-mundo capitalista. Essa esperança se diluiu definitivamente a partir da década de 80 com o colapso da ex-União Soviética e com o ressurgimento do conservadorismo travestido de neoliberalismo em diversos países[5].
No caso brasileiro a situação parece ser um pouco mais complicada, tendo em vista a própria história do país, que é marcada pelas consequências do colonialismo e a condição de país periférico com elites autocráticas e pouco comprometidas com o conceito de soberania nacional. Por aqui, no que se refere à dinâmica política, nunca houve uma distinção muito evidente entre conservadores e liberais, que têm a mesma origem ou mantêm identidade com as elites socioeconômicas e convergem no interesse de manter o status quo, defender privilégios e conter a participação popular. Não obstante pequenas diferenças na forma de condução do poder e controle dos movimentos populares, conservadores e liberais nunca se antagonizaram no que se refere à manutenção da ordem.
Eles estiveram juntos na defesa dos interesses da aristocracia agrária e escravocrata durante o Império e a República Velha, compuseram no apoio ao Estado Novo varguista e durante a Ditadura Militar nas décadas de 60 e 70, bem como erigiram em conjunto as bandeiras do anticomunismo e de manutenção intransigente da ordem econômica capitalista. Na década de 80, durante a Assembleia Nacional Constituinte, eles se uniram no conhecido Centrão como bloco suprapartidário autointitulado de centro-direita, mas com o propósito evidente de conter propostas de mudanças estruturais e de defender os interesses e privilégios das elites no texto constitucional. Como é sabido, esse bloco se tornou um fator determinante na manutenção da governabilidade, servindo ao sistema de coalizões de forma fisiológica até 2020, quando o parlamento brasileiro conseguiu aumentar seu poder discricionário sobre o orçamento público e os cargos no Poder Executivo deixaram de ter o mesmo valor de outrora[6].
A chegada de partidos como o PRN, PSDB e PT ao poder, após a Nova República em 1985, não significou necessariamente uma guinada do país em direção a uma social democracia, ainda que as gestões tucana e petista tenham lançado mão de políticas compensatórias. Em verdade, observados particularmente pelo viés econômico, excetuando-se o PRN que já possuía uma agenda liberal, os demais atuaram muito próximos da ideia de avatares do liberalismo, adotando inclusive políticas neoliberais assumidas mundialmente por governos essencialmente conservadores. O PRN levantou a bandeira da desregulamentação da economia e choque de gestão com ênfase nas privatizações (Programa Nacional de Desestatização), abertura comercial e redução do Estado. O PSDB não disfarçou o perfil neoliberal de suas políticas e deu início a procedimentos para a reforma do Estado com foco no gerencialismo, privatizações principalmente na área das telecomunicações e abertura para capital estrangeiro. O PT, por sua vez, aderiu às concessões e parcerias público-privadas e também se embrenhou em privatizações no setor elétrico e de petróleo.
As agendas de todos esses partidos no exercício do poder foram obviamente responsivas às tendências predominantes no sistema-mundo capitalista naquele momento, particularmente no que ocorria marcadamente nos EUA e na Europa (com destaque para a Grã-Bretanha). Essa é a consequência imediata no comportamento de um país periférico, mas a configuração política também esteve na dependência dos arranjos estabelecidos internamente pelas elites locais. O agronegócio, por exemplo, que teve expansão entre as décadas de 70 e 80, inclusive com apoio tecnológico governamental via Embrapa, consolida-se na década de 90, atingindo atualmente algo em torno de 25% do PIB. O país se desindustrializa a partir da década de 80, ao passo que se torna um grande exportador de commodities, e os agropecuaristas ampliam o poder no parlamento nas conhecidas bancadas do agro e do boi, não por acaso em grande parte integradas ao Centrão.
Portanto, o presidente brasileiro pode ter alguma parcela de razão em sua percepção do predomínio do centro no que se refere à política europeia e norte-americana, pelo menos até meados do final da década de 90, quando se observa o acirramento crescente da polarização política e, de forma não inusitada, o ressurgimento do protagonismo da extrema direita em diversos países: Áustria em 2000, Hungria em 2010 e Itália em 2022. É necessário considerar também o que ocorre nos EUA no período de 2017 a 2021, com a gestão conservadora de Donald Trump, que retorna ao poder em 2024 com discurso ainda mais nacionalista e xenofóbico. Ainda na Europa, destaca-se a atuação da extrema direita na França com Marine Le Pen, que por pouco não venceu as eleições presidenciais em 2022.
Na América Latina registram-se também diversas ocorrências de assunção do poder pela extrema direita no mesmo período: no Brasil a gestão bolsonarista entre 2018-2022; em El Salvador a gestão de Nayib Bukele entre 2019-2023, que foi reconduzido à presidência em 2024; na Argentina a gestão de Javier Milei iniciada em 2023; no Chile a eleição de José Antônio Kast em 2026 e, mais recentemente, a provável eleição do empresário de extrema direita Abelardo de La Espriella na Colômbia, que deverá conduzir o país até 2030[7], e a eleição de Keiko Fujimori no Peru. Em quase todos esses países, a extrema direita contou e conta com o apoio da direita tradicional ou dos conservadores, incluindo aqueles segmentos que fazem a defesa mais liberal do mercado, do estado mínimo na economia e do alinhamento acrítico com os interesses imperialistas dos EUA.
Nesse contexto, já não se pode admitir que o mundo seja de centro ou que esteja caminhando nessa direção e a fala do presidente brasileiro deixa de corresponder à realidade. Entender por que o centro não é mais possível, exige entender o que está acontecendo com o sistema-mundo capitalista e com a geopolítica que foi estabelecida depois de 1945 e suas inflexões a partir do colapso da União Soviética em 1991. Os anos que decorrem desde o fim da Guerra Fria evidenciam não só o posicionamento dos EUA como potência unipolar, mas a gradual degradação de sua hegemonia, que se torna predatória e os tem conduzido a se amparar cada vez mais no artifício das sanções econômicas, intervenções de inteligência e ações militares mundo afora[8]. O protagonismo econômico e tecnológico da China, além de tendências que apontam para a desdolarização da economia global, ascensão de potências multipolares (como uma possibilidade) e, sobretudo, os sinais visíveis da desindustrialização, da concentração de renda, do aumento da dívida pública, da estagnação salarial e da elevação do custo de vida na economia interna dos EUA, evidenciam entre outras tendências o provável colapso do império norte-americano em futuro próximo.
O que devemos levar em consideração, do nosso ponto de vista, aceitando-se as linhas gerais das elaborações analíticas de Immanuel Wallerstein, é a evidência de que o sistema-mundo moderno se encontra em um momento de transformações ou em uma situação de crise. Entre as tendências que evidenciam essa crise, de acordo com Wallerstein, encontram-se: 1) desruralização do mundo; 2) escalada do custo social decorrente da externalização dos custos empresariais; 3) pressão democratizante como elemento essencial da estabilização políticas e, por fim, 4) o colapso da velha esquerda ou dos movimentos antissistêmicos. Essa última tendência é a que nos interessa neste momento, porque é ela que torna claro o fracasso atual das esquerdas como avatares do liberalismo, bem como a descrença da população em políticas incrementalistas e a consequente perda de legitimidade no que se refere as intervenções do Estado.
“De facto, os movimentos tradicionais serviam como uma garantia para o sistema existente, na medida que afiançavam as classes perigosas do mundo que o futuro seria delas, que um mundo mais igualitário estava no horizonte (senão para elas, para seus filhos), promovendo assim a legitimação tanto do otimismo como da paciência. Nos últimos 20 anos [ou seja, desde a década de 80], a fé popular nesses movimentos (em todas as suas variedades) se desintegrou, o que significa que sua capacidade de canalizar ódios desapareceu com eles. Visto que todos esses movimentos de fato pregavam as virtudes do fortalecimento das estruturas do Estado (para poder transformar o sistema), a fé nesses Estados reformistas também declinou radicalmente. E isto é a última coisa que os defensores do sistema atual querem, apesar de sua retórica anti-Estado. Os acumuladores de capital na verdade contam com o Estado tanto para garantir monopólios econômicos como para reprimir as tendências ‘anárquicas’ das classes perigosas. Nós testemunhamos hoje em todo o mundo o declínio da força das estruturas estatais, o que significa o aumento da insegurança e das estruturas defensivas ad hoc”[9].
Em outras palavras, é possível admitir que as esquerdas se burocratizaram no exercício do poder, como avatares do liberalismo, e perderam a capacidade de urdir utopias capazes de mobilizar a massa dos descontentes. As mudanças estruturais mais significativas sempre adiadas conduziram à desilusão, que sorrateiramente foi manipulada pela extrema direita, mediante a posse, inquestionavelmente hipócrita, do discurso antissistema. Isso ficou muito evidente no caso brasileiro desde a década de 90 e, mais incisivamente, a partir dos anos 2000. Parte da então esquerda brasileira, que hoje se intitula apenas progressista, não conseguiu compreender, por exemplo, as Jornadas de Junho em 2013 iniciadas com o protesto em São Paulo contra o aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus. A repressão policial desmedida só aguçou a revolta e a ampliação da agenda de um movimento inicialmente apartidário, que evidenciou o desconforto de diversos segmentos urbanos com questões como mobilidade urbana, qualidade dos serviços de saúde e educação, elevação do custo de vida e corrupção na política. O mais interessante é que, nessa ocasião, o governo Federal era conduzido pelo PT, o governo de São Paulo por um integrante do PSDB e a prefeitura da capital do estado por um integrante do PT.
Não nos parece adequado admitir que o avanço da extrema direita e a vitória nas urnas em 2018 seja um caso isolado, que tenha decorrido exclusivamente das Jornadas de Junho e culminado no golpe institucional que destituiu a ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, porque os fatos indicam um processo mais intricado e mais amplo, ainda que não se possa desconsiderar a relevância da capacidade de articulação das elites nacionais, inclusive na utilização eficiente das estruturas internas do próprio Estado[10]. Nesse aspecto, temos que concordar que as elites nacionais demonstram grau de competência inquestionável para a conquista e manutenção do poder, seja por intermédio das artimanhas políticas ou dos tradicionais golpes de Estado. Na realidade, o que se pode constatar é a soma da insatisfação interna e o avanço das forças conservadoras no cenário mundial, ambos os fatos decorrentes dos antagonismos e polaridades do próprio sistema econômico.
Vale ressaltar, portanto, que ao admitirmos uma amplitude maior do que apenas um fenômeno local, não temos a pretensão de classificar as manifestações de 2013 como algo típico das guerras híbridas, semelhante ao que ocorreu no Egito em 2011 e na Ucrânia em 2014, ainda que os EUA tenham declarado interesse em manter seu domínio sobre a América Latina[11]. Estamos apenas sugerindo que a ascensão da extrema direita no Brasil e no restante do continente acompanha uma tendência internacional, que, do nosso ponto de vista, tem tudo a ver com a crise da economia-mundo capitalista e as articulações norte-americanas para manter-se como hegemon mundial. Pode-se dizer, em outras palavras, que os norte-americanos conseguem canalizar, por intermédio de guerras híbridas ou simplesmente por meio de alianças com elites locais, os conflitos em países periféricos em proveito próprio. Quando isso não é possível, lançam mão de ações militares por procuração ou por intervenção direta, como nos parece ser os atuais casos na Ucrânia e no Irã.
O que julgamos muito evidente neste momento, aceitando-se a tese de crise da economia-mundo capitalista, é que não há mais espaço para as composições ao centro, assim como não há mais espaço para uma diplomacia de pretenso caráter racional nem chance para os órgãos multilaterais que foram concebidos após 1945. O mundo está, ao contrário, se polarizando porque se evidencia, mais uma vez, as contradições e conflitos do próprio sistema capitalista com a consequente radicalização daqueles que representam ou detêm o capital. A fala do presidente brasileiro pode ser considerada um artifício para se apresentar como um liberal junto às lideranças europeias e até mesmo, indiretamente, anunciar para os EUA que não deve ser considerado um radical de esquerda, mas, se essa for realmente a pretensão, não deverá surtir muito efeito. A Europa provavelmente seguirá caminhando em direção a total vassalagem em relação aos EUA e esses últimos farão das tripas coração para manter-se como império.
A realidade exige, portanto, do governo brasileiro e dos partidos que se consideram pelo menos progressistas, mais que uma definição discursiva sobre a condição ideológica. A situação atual requer uma perspectiva estratégica dos cenários geopolíticos e muito preparo tático para enfrentar o avanço agressivo da extrema direita internamente e o belicismo do Império norte-americano em sua política voltada para a América Latina. O país deveria ser um polo de resistência regional, mas considerando o perfil das elites brasileiras e de seus dirigentes, essa alternativa pode parecer uma piada sem graça. Alianças internas ou a tentativa de formação de uma nova frente ampla, repetindo-se a estratégia de 2022, mediante o intento de combate ao bolsonarismo e aos rompantes antidemocráticos, pode não surtir o efeito desejado, porque o país permanece polarizado e permanecerá dessa forma por muito tempo, tendo em vista que a polarização se enraíza na crise do sistema, tornando-se cada vez mais escassa a possibilidade de compor frentes com partidos de direita, ainda que fisiológicos e venais, sobretudo porque esses partidos têm a propensão quase natural para caminhar com a extrema direita, ainda que estabeleçam acordos formais e integrem frentes de governo.
A questão da soberania talvez ainda tenha alguma força para inflamar os sentimentos populares e possa ser explorada no enfrentamento da pressão externa, mas não é garantia em uma sociedade muito volátil e confusa quando se trata da expressão de sentimentos nacionalistas. No que se refere à questão regional, o Brasil nunca foi exemplo de liderança, pelo contrário. Atualmente essa situação se encontra ainda mais complicada, porque entre os 10 países expressivos da América do Sul, 7 encontram-se nas mãos de partidos de direita ou de extrema direita alinhados com os EUA. Excetuando-se a Venezuela, que está sob a pressão intervencionista norte-americana em uma situação ainda pouco compreensível, só restam o Brasil e o Uruguai, onde os mandatários, que são considerados pela imprensa em geral como de centro-esquerda, mantêm-se na direção de seus países apoiados em frentes amplas de governo, ou seja, sustentados em arranjos frágeis quando se trata de manter a governabilidade com estabilidade e sem contratempos.
O que pode resultar de imediato da crise da economia-mundo capitalista ninguém pode dizer com certeza: pode ser o surgimento de um novo hegemon, pode ser um sistema de multipolaridades e até mesmo a acomodação do sistema atual com algum fôlego para persistir por mais tempo, além obviamente da hipótese apocalíptica de uma terceira grande guerra com consequências inestimáveis. De qualquer forma, até mesmo devido à incerteza, torna-se urgente pensar estrategicamente o futuro. Esse pode ser um desafio para as esquerdas desincumbidas da condição de avatares, tendo em vista que a direita e a extrema direita não têm nada a oferecer a não ser as falsas promessas do neoliberalismo e a manutenção do sistema moribundo, mas, para tanto, é necessário superar o esquerdismo burocrático e o realismo capitalista[12], ou seja, despir-se da crença de que não há alternativas para o capitalismo.
Portanto, para além da topografia ideológica, é necessário enfrentar a dinâmica da política nacional olhando para o tabuleiro das tendências no cenário mundial. Não parece mais ser razoável manter a política de coalizões em busca de um centro fictício, até mesmo porque os conservadores, incluindo a direita e a extrema direita, já se encontram localizados no eixo de influência dos EUA e da Europa. A posição ambígua em relação a esse eixo só reforça o poder de influência e interferência dos conservadores internamente. Não considerar o que está acontecendo atualmente na Ásia e no Oriente Médio, inclusive com o envolvimento de países integrantes dos BRICS na resistência ao imperialismo norte-americano, pode ser um grande equívoco.
Em verdade, pensar estrategicamente o futuro requer considerar não só o fortalecimento do diálogo político-diplomático a partir desse bloco, dentro de marcos inovadores e independentes daqueles que foram construídos de acordo com a lógica da Guerra Fria e do processo de militarização ocidental, mas também buscar alternativas por meio da cooperação econômica que garantam o desenvolvimento dos países membros em padrões mais sustentáveis e mais justos. Novos arranjos econômicos podem, inclusive, viabilizar que países hoje condenados à produção de commodities possam retomar a industrialização e também a soberania sobre os seus recursos energéticos, que se encontram atualmente ameaçados pela voracidade imperialista norte-americana. Essa ameaça atinge atualmente as terras raras, que são cruciais para as atuais tecnologias de ponta (inteligência artificial, operação de dados, automação, entre outras), e, em breve espaço de tempo, certamente abarcará a disputa pelos aquíferos ou recursos hídricos.
A possibilidade de uma aliança militar e de defesa mútua dos membros do BRICS é algo que não parece estar no horizonte, pelo menos no momento atual, tendo em vista as especificidades históricas, geográficas e regionais dos países integrantes. Porém, tendo em vista a dinâmica dos interesses e das forças políticas no sistema-mundo atualmente, convém que a questão da defesa, da soberania e do território, se torne uma prioridade na agenda. De qualquer forma, excluindo-se a questão da ajuda militar mútua, o bloco pode ainda estabelecer procedimentos econômicos alternativos, a exemplo de moedas e formas de pagamento alternativas, que podem afetar significativamente as tendências atuais da economia-mundo capitalista, da geopolítica e da geocultura ocidental. Além da questão econômica, há possibilidades reais e viáveis de cooperação nas áreas da ciência e tecnologia, da cultura, da educação, da saúde, da infraestrutura, da mobilidade urbana e da soberania alimentar, que podem redimensionar e incrementar o desenvolvimento dos países do Sul Global.
Traçar projetos nesse sentido e viabilizá-los por intermédio de ações políticas concretas pode ser uma alternativa alvissareira para as esquerdas. A direita e a extrema direita brasileiras em verdade se opõem a um projeto dessa natureza, ainda que o comércio entre os membros do BRICS seja extremamente relevante para parcela considerável das elites nacionais, a exemplo das commodities adquiridas pela China. Os segmentos conservadores se alinham na defesa de interesses euro-estadunidenses e ecoam valores do sistema-mundo no mínimo questionáveis. Então, eis aí mais um motivo para que a agenda seja abraçada, juntamente com a definição de estratégias para ocupar a liderança regional em defesa da soberania nacional e dos países do continente. Porém, como já mencionado, apenas uma esquerda emancipada do progressismo liberal e despreocupada em ocupar o centro do espectro político poderá cumprir esse papel, caso contrário continuará a desempenhar, quando lhe é permitido e desejado, sob o signo de um progressismo capenga e da defesa de uma democracia liberal duvidosa, o mero papel de avatar na gestão do Estado e dos interesses das elites dominantes.
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[1] Em junho de 1994, por exemplo, durante campanha na Baixada Fluminense, o presidente declarava que não tinha um discurso marxista e se comparava, em termos da conduta política, ao empresário norte-americano Henry Ford. Conferir: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/6/30/brasil/17.html.
[2] Essa percepção também não é inédita. A confluência para o centro foi abordada pelo presidente em 2006, quando recebeu o prêmio Brasileiro do Ano, promovido pela revista Istoé. Naquela ocasião, ele declarou: "Quem é mais de direita vai ficando mais de centro, e quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda. As coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos, e de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito". Conferir: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/87486/lula-declaracoes-sobre-esquerda-eram-brincadeira.
[3] Immanuel Wallerstein. O Fim do Mundo como o Concebemos: Ciência Social para o Século XXI. Rio de Janeiro. Editora Revan, 2002 (p. 183).
[4] O conceito de meritocracia, que é enfatizado pelos neoliberais, advém dessa crença no poder da competência ou da capacidade em instrumentalizar os saberes em função do controle social.
[5] Pode-se admitir que dois marcos desse período são as indicações de Margaret Thatcher como primeira-ministra britânica em 1979 e de Ronald Reagan à presidência dos EUA em 1981, ambos considerados figuras destacadas na promoção de políticas neoliberais, a exemplo das desregulamentações, privatizações e redução do Estado.
[6] O sistema de coalizão brasileiro se baseia no apoio às ações dos dirigentes do Executivo, ou seja, na garantia da governabilidade, mediante a liberação de verbas e ocupação de cargos em órgãos da administração federal.
[7] A apuração preliminar resultou na vitória de La Espriella por 49,7% a 48,5%, mas a proclamação do resultado final ainda não aconteceu e deverá ser realizada por intermédio do escrutínio, de acordo com as regras eleitorais da Colômbia, que consiste na recontagem dos votos e análise das atas por juízes na presença de fiscais e representantes dos partidos.
[8] O conceito de hegemonia predatória é adotado na área das relações internacionais para designar a ação exploratória de Estados dominantes, que buscam extrair vantagens de forma unilateral sem se preocupar com a promoção da cooperação mútua entre países.
[9] Immanuel Wallerstein. Ob. cit. p. 168-169.
[10] Vale a pena lembrar que as articulações realizadas em 2016 para a derrubada da então presidente Dilma Roussef, reuniu a influência das bancadas conservadoras no congresso, principalmente do Centrão, e decisões favoráveis de membros do STF, cumprindo-se o que propunha o senador Romero Jucá (MDB-AP) em maio do mesmo ano: um pacto nacional com Supremo, com tudo.
[11] O domínio norte-americano é reiterado no National Security Strategic of the United State of America publicado pelos EUA em novembro de 2025. Nesse documento, apelidado pela imprensa como Doutrina Donroe, em referência à Doutrina Monroe, o governo Trump apresenta as linhas gerais de sua política externa. Destaca-se no texto a defesa do protecionismo, de práticas comerciais coercitivas e da ação militar sobre países estrangeiros, inclusive países latino-americanos, que são considerados como áreas de interesse e influência norte-americana.
[12] Conferir Mark Fisher. Realismo Capitalista. 1ed. São Paulo. Autonomia Literária, 2020.
