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Precisamos de Sonhos

José Mendes de Oliveira

09 de agosto de 2026

 

A sociedade brasileira tornou-se uma coisa estafante. Há uma hiperinflação de sentimentos depressivos entre os achaques de uma extrema direita imoral, que se conecta ou traduz o fenômeno de uma bestialização mundial, e os contorcionismos de um progressismo, que não empolga, no que resta da esquerda acomodada ao establishment. A política de hoje, aguçando vícios e distorções que sempre existiram na dinâmica do poder, é algo vergonhoso, mas ninguém se enrubesce por tantos mal feitos. A trapaça, a corrupção e a desfaçatez aparecem em todos os cantos como algo muito normal ou como aspectos legítimos do jogo. A ética não importa mais, sequer para estudos acadêmicos, e o pragmatismo da conquista do poder em função do enriquecimento fácil, de indivíduos, de famílias e de quadrilhas, tornou-se preponderante. A política já não é mais – se é que um dia chegou a sê-lo – o caminho para a concretização de utopias, mas tornou-se certamente a alternativa mais efetiva para assegurar a impunidade e dar acoito a malfeitores por intermédio de vias institucionais. Essa realidade árida, que causa a desertificação dos espíritos, reitera o esquecimento do passado, a falta de sentido do presente e o prenúncio de um futuro distópico.

 

Tudo isso é obviamente, do meu ponto de vista, algo que transpira, não obstante as particularidades locais e regionais, a crise atual do sistema-mundo capitalista. Em diversos momentos da história ocidental, quando sujeitas aos perigos das transformações estruturais, as elites capitalistas reagiram com apelo ao absurdo e no extremo recorreram ao estratagema destrutivo dos regimes fascistas e dos conflitos bélicos. Considerando-se apenas o século XX, entre inúmeros conflitos de pequeno e médio porte, a história foi marcada pelas carnificinas de duas grandes guerras mundiais. Essa ameaça permanece como espada de Dâmocles sobre nossas cabeças, particularmente nesta era marcada pela ameaça das ogivas nucleares, que para muitos analistas da geopolítica, por ingenuidade ou maledicência, não representa nada mais que dissuasão no tabuleiro dos embates internacionais. Mas, além das ogivas que podem ser objetos de adoração de psicopatas destrutivos, parece-nos que a falta de esperança e a incapacidade de idealizar o futuro tenham um poder explosivo ainda mais assolador. O embotamento dos sentidos transformou muitos entre nós em mortos-vivos ou em criaturas que balbuciam e babam sob o poder de algoritmos e de questionáveis influenciadores digitais.

 

A apatia pode ser atribuída, por um lado, à subjugação da vida à lógica do mercado, ou como diria Habermas[1], da colonização do mundo da vida com a consequente instrumentalização dos espaços de convivência, cultura e interação comunicativa. E por outro, ao eficiente convencimento de um certo realismo capitalista, para recordarmos um conceito de Mark Fisher[2], que, mediante a invasão das consciências e do inconsciente, impôs a interdição do futuro por intermédio da crença de que a ordem do capital seria uma realidade fora de disputa ou uma realidade trans-histórica a ser aceita com resignação. Para sobreviver nesse mundo fantástico – ensinam os acólitos do neoliberalismo – basta que o sujeito se torne um empreendedor. No Brasil, o impacto dessa triste faceta da modernidade ocidental se ilustra na imagem de inúmeros youtubers que se julgam senhores da razão, ou na hilária ilusão dos entregadores de refeições rápidas, que se pretendem livres das relações de trabalho e patrões de si mesmos. Todos participam do caótico universo dos que demonizam o Estado e as ações coletivas, porque foram convencidos de que a salvação se encontra no individualismo mais profundo e mais grotesco. E quanto mais o sistema-mundo capitalista agoniza, mais investimentos realiza nessas ficções do neoliberalismo e do rentismo.

 

A crise de valores, as inversões malucas e a perda das referências encontram na atualidade espaço favorável à reprodução no mundo virtual. No caso brasileiro, além do Google ter se tornado um oráculo, ocorrências absurdas e constrangedoras chamam a atenção. Embora não tenhamos a contundência dos números, não é leviano admitir que, talvez, tenhamos mais médicos oferecendo aconselhamentos e orientações no Youtube do que nas clínicas e hospitais, juristas opinando sobre processos que deveriam estar sob os cuidados exclusivos das instituições judiciárias, economistas atuando como bruxos na indicação dos caminhos para o sucesso nos investimentos, bem como professores universitários que comercializam cursos online ou travestem-se de jornalistas em canais independentes politicamente orientados para todos os gostos: para extremistas de direita, para os equilibristas moderados de centro ou para espíritos abertos ao progressismo.  Em verdade, todos desejam ardentemente a figuração e, principalmente, a monetização. Tudo está muito confuso e quanto menos as pessoas buscam um conceito de certeza ou verdade com base na razão ou na ciência, mais abraçam opiniões ou, de acordo com o conceito em voga, buscam o esteio de narrativas de forma acrítica e em geral dogmática. As construções ideativas, na maioria das vezes, beiram as raias da alucinação ou dos transtornos psicóticos.

 

O contexto atual pode ser definido, tomando-se de empréstimo a ideia de José Saramago[3], como um momento de uma cegueira contagiosa, que se espalha rápido como uma epidemia e provoca o caos, a perda de sentido e a desorientação. Tudo isso é produto e, ao mesmo tempo, uma ocorrência funcional de um sistema econômico, político e social que se contorce com os impactos de suas próprias contradições. O momento é, em verdade, de crise e perda de referências, mas também de um certo saudosismo. É neste momento de vacas magras e muita gente desmiolada atuando nos cantinhos e cantões das sociedades capitalistas ocidentais, que nos vem a saudade do passado. Nesses momentos, até rótulo de produtos antigos, ou um velho comercial de televisão, se torna motivo para ternas lembranças. Exageros do espírito, que, certamente, busca válvulas de escape e superestima o passado enternecendo-se com banalidades. Porém, há lembranças mais substantivas, como aquela de professores que não eram estrelas no Youtube, mas foram referências como educadores e marcos de inspiração, como a poesia de canções que realmente faziam sentido ou como as matérias de jornalistas cujos textos eram apreciados por maestria e confiabilidade. Há sim a sensação de que muitas coisas boas se perderam no caminho que nos trouxeram ao presente.    

 

No confuso clima da atualidade, relembro as canções pacifistas e de protestos que marcaram os movimentos da contracultura e da Nova Esquerda nas décadas de 60 e 70, e me surpreendo, confuso comigo mesmo, por enxergar em épocas de ditaduras e guerras orquestradas pelo imperialismo norte-americano algo que merecesse ser lembrado com nostalgia. Hoje, ouço a voz cândida de Doji Morita[4] e, em comunhão de uma melancolia muito dolorida, sinto saudades daquela juventude que ainda sonhava e acreditava em utopias. Uma juventude que estava presente mundo afora e que questionava o establishment e o status quo.  Em meio ao saudosismo, percebo que faz muita falta o Pasquim, o Jornal Opinião, o Clube do Livro, as bancas de jornais e o sentido de um tempo em que podíamos escrever cartas, talvez repletas de erros ortográficos e gramaticais, mas genuínas como forma de expressão mais densa se comparadas as palavras cifradas e aos emojis dos atuais aplicativos de mensagens instantâneas. A velocidade venceu a parcimônia e com ela foi-se a capacidade de escrever de forma desprendida sobre a vida e o cotidiano, ou seja, não há mais tempo para a prosa.  Assim como não há mais tempo para a redação extensa – apelidada jocosamente, pelos adeptos das mídias sociais, de textão – não há também tempo para a reflexão. A crítica que advinha do desvelo, da perscrutação, do olhar atento para além das aparências, foi abandonada em prol da superficialidade e do impropério.

 

A altercação já não se baseia em evidências e argumentos e o embate de ideias, na maior parte das vezes, é finalizado com agressões. Na era dos podcasts e debates online, em aparente contradição, a fala inteligente cede o espaço à performance e à subjugação. A intolerância e a indisposição para reconhecer a pluralidade de perspectivas é um dos aspectos que caracterizam a polarização política e todas as outras formas de intolerância que se possa registrar. Assiste-se à morte da diplomacia, porque já não há mais espaço para o diálogo, ou sequer para a percepção tão cara aos zelos antropológicos da existência de um Outro. Toda essa tensão, que se firma na intransigência, faz coro com a arrogância do império norte-americano, que se contorce para manter o sistema capitalista e sua própria hegemonia de pé, pelo menos na parte ocidental do mundo. É verdade que as ofensivas euro-americanas foram bem sucedidas após a Grande Guerra: derrotaram os movimentos operários e de contracultura em parte do extremo oriente e impuseram o alinhamento do Japão e da Coreia do Sul aos interesses estratégicos dos EUA[5], incentivaram e apoiaram ditaduras na América Latina a partir da década de 60, expandiram bases militares em diversos países do oriente médio na década de 90 e impuseram ao mundo a hegemonia do dólar. No entanto, a situação tem mudado, não só devido a ascensão econômica da China, mas, sobretudo, devido as contradições e ambiguidades das sociedades norte-americana e europeias.

 

Embora a extrema direita esteja atuando nos quatro cantos do globo de forma muito agressiva e em consonância com a pressão norte-americana para a manutenção de sua hegemonia imperialista, é importante notar que essa expansão se deve fundamentalmente às fragilidades do sistema e às inseguranças das elites que sustentam a ordem do capital. Não seria excessivo ou leviano admitir, parafraseando Samuel Johnson, que o fascismo e as guerras são as últimas alternativas dos canalhas. É necessário que se perceba a impossibilidade de enfrentamento do extremismo fascista apenas com a conquista de pleitos eleitorais, que, no caso brasileiro, inevitavelmente se ajusta aos arranjos do establishment. Combater ideias retrógadas e reacionárias requer uma perspectiva crítica e o desejo ardente por um futuro mais alvissareiro. Daí a relevância de uma juventude sonhadora, mas também aguerrida, que possa anunciar o novo nas artes, nas ciências e também nas práticas da vida cotidiana. A verdadeira ação revolucionária não ocorre dentro dos muros das instituições cristalizadas em suas rotinas e burocracias ou na mera troca de governantes. Ela requer o rompimento com a ordem vigente e a busca de novos marcos não só econômicos e políticos, mas também culturais. Por enquanto, no caso brasileiro, só temos visto a procriação do extremismo conservador e retrógado, falta enxergar o lampejo de uma nova juventude, disposta a questionar a lógica vigente ou os padrões solidificados e a projetar de forma construtiva e humanista o futuro, ou seja, uma juventude capaz de sonhar e de formular utopias em combate à idiotia que nos ronda e nos ameaça.

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[1] Jürgen Habermas. Teoría de La Acción Comunicativa, vol. I y II. Madrid. Taurus, 1999.

[2] Mark Fisher. Realismo Capitalista. 1ed. São Paulo. Autonomia Literária, 2020.

[3] José Saramago. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo. Companhias das Letras, 2008.

[4] Doji Morita foi uma compositora e cantora japonesa, que realizou gravações entre os anos de 1975 e 1983, antes de abandonar a vida artística. As composições de Morita são marcadas por forte melancolia e suas letras, além de destacar os sentimentos da perda e da solidão, abordam as desilusões da juventude e dos movimentos estudantis no Japão, que têm início após a Segunda Grande Guerra e se estendem até o início da década de 70. A própria Doji Morita participou desses movimentos no final dos anos 60 e início dos anos 70, ainda como estudante secundarista, quando os protestos tinham como foco a crítica ao capitalismo, ao imperialismo (destacando-se o acordo militar firmado entre os EUA e o Japão e a Guerra do Vietnã) e às burocracias autoritárias e militaristas nas universidades. Entre as canções de Morita, que abordam os movimentos estudantis e a desilusão, destaca-se Foi Tudo um Sonho.

[5] No caso do Japão, é relevante considerar as análises de Muto Ichiyo, que demonstram como a derrota do movimento trabalhista, o controle patronal e a flexibilidade laboral no Japão não constituem fenômenos associados a características meramente culturais ou decorrentes de interesses convergentes e harmônicos entre trabalhadores, gerentes e empresários, mas de ações concretas de repressão e controle às mobilizações trabalhistas e aos partidos políticos de orientação contrária à aliança da burguesia japonesa com o imperialismo norte-americano no pós-guerra. Conferir: Muto Ichiyo. Class Struggle and Technologial Innovation in Japan Since 1945. Notebooks for Study and Research, Number 5. International Institute for Research and Education, 1987.     

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