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Momento de Mudanças

José Mendes de Oliveira

08 de novembro de 2026​

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“A verdadeira responsabilidade fiscal e monetária consiste em assegurar que a contabilidade financeira da economia seja pautada pelos valores, no sentido de crenças e princípios, da sociedade. A contabilidade financeira deve procurar recompensar a produtividade e promover o bem estar coletivo. Assim como não pode ser desvirtuada para atender a interesses ilegítimos dos ocupantes do Estado e corporativistas de setores que procuram capturá-lo, não pode também ser integralmente delegada ao sistema financeiro com acesso ao banco central. O volume e o direcionamento do crédito é instrumento poderoso, muito mais poderoso do que a taxa básica de juros, hoje, o principal instrumento de política monetária[1]”.

 

(André Lara Resende)

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O economista André Lara Resende produziu dois textos, que traduzem a sua persistente oposição à taxa de juros elevada praticada no Brasil, que deveriam ser urgentemente lidos pelo presidente Lula e por seu entorno mais influente. Trata-se do A Camisa de Força Ideológica da Macroeconomia, lançado como texto para discussão no Centro Brasileiro de Relações Internacionais em março de 2022 e, no mesmo ano, publicado em livro pela Companhia das Letras, e o mais recente Eu Acuso: Uma Proposta para Eliminar os Juros Absurdos, publicado no substack do autor em setembro de 2026. Pode-se admitir que o primeiro texto tem um caráter mais acadêmico e o segundo mais executivo, ou seja, trata-se de uma proposta objetiva e destinada à ação para a redução da taxa básica de juros no país. É, portanto, um texto que pode e deve ser considerado na esfera de quem toma decisões, e por isso adequado para a leitura do presidente e de seus auxiliares na área econômica do governo.

 

O que Lara Resende evidencia em análise objetiva e muito criteriosa é que o cerne do problema fiscal não se encontra no déficit público primário, como insiste em defender o já esgarçado discurso de representantes do mercado financeiro e da imprensa hegemônica, mas no serviço da dívida. O economista chama a atenção para o fato de que a taxa de crescimento da dívida bruta, em torno de 12,7% ao ano, e a do PIB nominal, em torno de 7%, corresponde à diferença entre os percentuais, ou seja, algo em torno de 5,7% ao ano, o que torna a tendência de crescimento insustentável e explosiva. Em outras palavras, o que pesa na balança é o dispêndio com o serviço da dívida, que, de acordo com o próprio Banco Central, atingiu em juros nominais e em valores consolidados até setembro de 2026 o total de R$ 1.205 bilhões ou cerca de 8,99% do Produto Interno Bruto.

 

A taxa básica de juros muito elevada é a responsável por essa fabulosa despesa, bem como pela inviabilização do crédito para a produção e para o consumo, além de provocar o endividamento insustentável de pessoas físicas e jurídicas e, sobretudo, desestimular e impedir o investimento produtivo, ou seja, o incentivo ao desenvolvimento do próprio país. É essa taxa que deve ser combatida e o Banco Central poderia ter um papel significativo nesse combate caso não estivesse, de acordo com o economista, preso a preconceitos associados a uma teoria monetária e fiscal anacrônica. Despido desse anacronismo, o BC poderia atuar de forma mais racional e coerente na solução do desequilíbrio fiscal, sem favorecer de forma consciente ou não o interesse de grupos corporativos do mercado financeiro nem reiterar o discurso dos analistas desse mercado, que confundem o interesse de rentistas com a racionalidade econômica.

 

O economista concorda com a crítica de que o país aloca seus recursos de forma irracional e patrimonialista, a exemplo do que realiza por intermédio de emendas parlamentares, vantagens pecuniárias do judiciário, vinculações de receitas, isenções e subsídios, mas ressalta que o déficit fiscal primário é pequeno, e reitera que o verdadeiro problema se encontra na taxa abusiva dos juros. Para combater esse problema, ele propõe duas medidas: 1) redução da taxa básica de juros gradualmente, no período de um ano, até atingir 7,5% ao ano. A ideia é conduzir a Selic para uma faixa de 3% a 5,5% com uma margem de controle em torno de 2%; e 2) criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar, de forma integrada e mais racional, as políticas fiscal e monetária[1]. Na eventualidade de pressões sobre o câmbio, no decorrer da implantação da proposta, o economista sugere o uso das reservas cambiais, atualmente calculadas em cerca de US$ 362,82 bilhões.

 

Embora a proposta de Lara Resende não seja uma novidade, tendo em vista que o economista a defende há algum tempo, a gritaria no mercado financeiro, bem como o alarido dos seus representantes instalados nas mídias hegemônicas, foi ensurdecedora. A ocorrência constitui por si só uma prova de que as ideias do economista são no mínimo merecedoras de apreciação ou debate. O fato de ter causado incômodo deveria ser o suficiente para chamar a atenção do governo, que precisa urgentemente de uma solução para a taxa elevada de juros e de espaço suficiente para atender as demandas dos brasileiros que foram as urnas para elegê-lo. Ademais, a busca de uma solução para o problema não se prende a uma emergência de caráter conjuntural, tendo em vista que o país requer um redirecionamento mais estável ou uma mudança estrutural que garanta a adoção de uma política fiscal e monetária integrada capaz de assegurar, como assevera Lara Resende, uma contabilidade financeira da economia pautada pelos valores, no sentido de crenças e princípios, da sociedade.

 

Os argumentos do economista são contundentes, principalmente em A Camisa de Força Ideológica da Macroeconomia, no sentido da defesa de uma nova governança econômica orientada para o bem-estar coletivo, o que requer o imediato rompimento das amarras ideológicas da macroeconomia tradicional e das restrições institucionais ao poder financeiro do Estado, que o impedem de atuar de forma decisiva e efetiva no desenvolvimento econômico e social do país. Vistas por esse ângulo, a hipertrofia financeira e a concentração da riqueza no Brasil constituem sintomas de uma gestão econômica deletéria, que restringe a ação do Estado e privilegia o sistema financeiro. Do nosso ponto de vista, esse tipo de gestão infelizmente encontra acólitos dentro da própria burocracia pública, e também entre auxiliares do mandatário do governo que atuam na área econômica, e isso torna a situação ainda mais complicada devido à contradição ou pelo menos à tensão que se estabelece entre um governo que precisa dar atenção às demandas sociais e uma burocracia alinhada com interesses do mercado.

 

A autonomia do Banco Central é outro problema perturbador, que não se encontra destacado na discussão de Lara Resende, pelo menos de forma explícita, mas que consideramos passível de discussão e, até mesmo, de uma possível reversão. Entre as críticas, já registradas por economistas não ortodoxos, encontramos o que julgamos ser argumentos razoáveis para, no mínimo, questionarmos essa autonomia: 1) a centralização econômica em uma entidade técnica constitui uma forma de esvaziar politicamente o debate em torno de questões que interessam à sociedade, a exemplo da própria taxa de juros que afeta o emprego, a renda e o crescimento da economia, o que tem sido considerado como uma forma de déficit de legitimidade democrática; 2)  a priorização de uma política voltada para o cumprimento de metas e da intransigente estabilidade de preços resulta, em geral, em efeitos negativos para o desenvolvimento do país, devido à depressão da atividade econômica, encarecimento do crédito e desestímulo aos investimentos produtivos; 3) a política de taxas de juros elevadas aumenta, como demonstram inclusive as análises de Lara Resende, o déficit nominal do governo e o custo da dívida pública com a consequente transferência de recursos para o mercado financeiro e, por fim, 4) a autonomia viabiliza o alinhamento e a captura das decisões do Banco Central pelos interesses do sistema financeiro privado.

 

Essas críticas não são infundadas e, além das análises de economistas não ortodoxos credenciados para tanto, basta ao cidadão comum observar com atenção as manchetes dos jornais e periódicos. A mais recente destacou a iniciativa do Comitê de Política Monetária do Banco Central em manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, interrompendo uma tendência de redução gradual que vinha acontecendo desde março de 2026[2]. O curioso é que a manutenção coincide com o momento em que o debate em torno da proposta de Lara Resende toma novo fôlego e o mercado financeiro começa a sua gritaria, temeroso de que o governo recém reeleito seja encorajado a ouvir o economista. Os motivos da manutenção da taxa seguem a providencial cantilena dos tecnocratas, que talvez revele muito pouco sobre os reais motivos, mas, como sempre, foram destacados o aumento das incertezas no cenário doméstico e internacional (que incertezas?!), as pressões inflacionárias persistentes acima da meta, a desancoragem de expectativas e a necessidade de monitoramento dos impactos da política fiscal.

 

O governo recém reeleito encontra-se em um momento decisivo para optar entre mudanças, que podem significar a retomada do desenvolvimento do país, ou manter-se conservadoramente no lugar de quem contemporiza: conciliando e defendendo políticas contracionistas de austeridade. A voz das urnas parece sinalizar o desejo por algo diferente e a opção por essa segunda alternativa poderá ser um tiro certeiro na própria cabeça ou o caminho mais fácil para o suicídio político. Este não parece ser o momento mais adequado para manter a política de congraçamento com o mercado financeiro e com a mídia hegemônica, que pressiona abertamente para a adoção de cortes em investimentos sociais e manutenção dos privilégios das elites brasileiras. O momento é favorável, considerando-se os cenários nacional e internacional, para o debate em torno de novas ideias e soluções, e nesse espaço cabe adequadamente a discussão em torno da proposta de Lara Resende. Não a considerar será a perda de uma oportunidade ímpar para pensar alternativas e soluções para um governo que precisa agir no espaço curto de quatro anos de gestão e deixar a sua marca na história como inovador, criador e transformador.

 

Apegar-se a ortodoxia interesseira de dentro e de fora da máquina pública será o mesmo que realizar um estelionato eleitoral. O mercado financeiro e a mídia hegemônica não mediram esforços para conduzir, mais uma vez, um representante da extrema direita ao poder, na esperança de manter as políticas de exclusão social, concentração de renda e privilégios das elites. Não foram bem sucedidos graças à mobilização social e à força do voto popular. O mínimo que se espera, portanto, é que o governo reeleito tenha a coragem de enfrentar de forma destemida o revanchismo desses segmentos sociais. O que se propõe atualmente não é nenhuma revolução socialista, mas o mínimo de decência para a instituição de uma sociedade mais justa em que o sistema financeiro não atue contra o próprio país com sua ganância e falta de limites. Nessa batalha, o governo pode contar com o que há de mais forte em um processo político, que é o apoio majoritário da população. Voltar-se contra essa força e desprezar o suporte daqueles que querem ajudar, com ideias e soluções, é render-se de forma deplorável ao atraso e adiar, novamente, a possiblidade de adoção de uma nova governança econômica, que possa trazer tranquilidade e prosperidade para a sociedade brasileira

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[1] André Lara Resende. Eu Acuso: Uma Proposta para Eliminar os Juros Absurdos. Publicado por Diário do Centro do Mundo (https://www.diariodocentrodomundo.com.br). Atualizado em 1/11/2026 às 17h03.

[2] https://www.cartacapital.com.br/economia/copom-interrompe-cortes-e-mantem-selic-a-1375-brasil-tem-a-maior-taxa-real-de-juros-do-mundo/

[1] André Lara Resende. A Camisa de Força Ideológica da Macroeconomia (Texto para Discussão). Rio de Janeiro. Núcleo de Economia Política. CEBRI, março de 2022 (p.23).

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