
Vox Populi, Vox Dei
José Mendes de Oliveira
31 de outubro de 2026
Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera, enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
(Gonzaguinha)
Há coisas na vida que fogem à estreita avaliação da razão. Não que a razão seja inadequada, inconveniente ou débil em toda e qualquer circunstância. Há momentos em que ela é imprescindível. Porém, nem sempre ela consegue traduzir o que a gente sente com a totalidade do corpo, com o rompante de um ânimo que parece transcender os limites dos neurônios. O evento é extasiante. A emoção se espraia, mesmo quando nos esforçamos para contê-la, e nos joga nas nuvens em misto de prazer, de empolgação e animação. Daí não se pode conter mais o riso, as lágrimas e os arrepios de uma emoção desenfreada. Essa sensação de enlevo ou de alegria suprema foi o que nos suscitaram as manifestações observadas nas ruas brasileiras durante o segundo turno do processo eleitoral. Para quem já não acreditava mais na capacidade de manifestação política da juventude brasileira, as ruas tomadas foram a merecida mordida na língua e a alegria imensa de descobrir que a estudantada está viva, reluzente e criativamente ofensiva.
Se até o dia anterior alimentávamos a saudade dos jovens de outrora, dos movimentos de contracultura e das utopias que marcaram os anos sessenta até meados de noventa, ver adolescentes e jovens nas ruas reacendeu a convicção de que nem tudo está perdido. A moçada entendeu muito bem o que é o fascismo, o retrocesso de direitos adquiridos, o valor da cidadania e foi à luta. Ao mesmo tempo em que tomaram as ruas, gritaram palavras de ordem, cantaram e tremularam bandeiras em diversas capitais brasileiras, a juventude abraçou e trouxe ao seu lado correntes de idosos alquebrados, mas não emudecidos, para fazer uso do direito ao voto e com ele demonstrar o desprezo aos nazifascistas que insistem em fazer do país uma colônia de bárbaros. O povo finalmente foi às ruas e reiterou o refrão da resistência chilena, que se tornou um patrimônio latino-americano: el pueblo unido jamás será vencido. O recado foi dado para o lulopetismo de gabinete, que um dia abandonou as suas bases e os movimentos populares, mas também serviu de exemplo ao mundo ocidental neste momento em que o sistema-mundo capitalista se contorce em crises e recorre às tradicionais atrocidades da extrema direita.
A presença do povo nas ruas, de forma espontânea e sem uma condução partidária específica, ainda que motivada pelo medo, é um aviso contundente de que as elites brasileiras podem muito, mas não podem tudo. Para o atual presidente fica a evidência de que não é mais aceitável ignorar a força das ruas, sem a qual dificilmente conseguirá governar em seu quarto e último mandato. Lula já está consagrado como um dos maiores líderes da história brasileira e também mundial, mas deverá se desdobrar para manter-se em conexão com a população e com os mais jovens para garantir que suas articulações políticas, dentro de um contexto institucional ainda marcado pela presença do bolsonarismo, não o coloque em situações vexatórias ou de acuamento, impedindo-o de responder às expectativas populares. O momento requer realismo e pragmatismo e, certamente, o governo não terá como fugir à famigerada coalizão, principalmente com o que resta da direita não faccionada. A conjuntura exigirá muita inteligência política e graus elevados de maquiavelismo, que, certamente, não faltarão se considerarmos a experiência política de Lula.
O sucesso dependerá do abandono de uma postura excessivamente conciliadora, que parece ter marcado a gestão dos últimos quatro anos, para a adoção de uma postura mais combativa no que se refere às exigências das elites econômicas e midiáticas, que não mediram esforços para viabilizar a naufragada opção bolsonarista na presidência da república. Negociar será necessário, mas com a contenção do risco a qualquer possibilidade de rendição ou abandono daqueles que se dispuseram a ir às ruas para viabilizar a reeleição de Lula. A peça mais importante no tabuleiro é o povo mobilizado, o apoio que vem das ruas, a exemplo do que foi evidenciado na Colômbia durante a gestão de Gustavo Petro, que, sem a maioria no Congresso, estabeleceu como contraforça a pressão social mediante a estratégia de mobilização popular e do diálogo permanente com a população. Ao contrário de deixar-se constranger pela agressividade de empresários, banqueiros, latifundiários do agronegócio e representantes das mídias tradicionais, Lula terá o desafio de construir uma gestão voltada para o atendimento das necessidades do povo brasileiro e, ao mesmo tempo, capaz de constituir-se como muro de contenção para os assaltos da extrema direita.
A tarefa não será fácil para um ancião, que já despendeu muita energia com a política brasileira, mas ela é inevitável tendo em vista a ausência de outras lideranças que possam assumi-la. Esse é outro desafio, que exige a reflexão e a ação de todos os segmentos partidários localizados na esfera do progressismo ou que ainda se julgam integrantes das esquerdas: aproveitar o potencial de uma juventude engajada para a constituição de futuras lideranças. Há talentos em todos os partidos, bem como em organizações da sociedade civil, que precisam ser ouvidos e incentivados. Entre eles, despontam personalidades a exemplo de Sâmia Bonfim, Fernanda Melchionna, Glauber Braga, Renato Freitas e, de forma surpreendente, o deputado André Janones, que idealizou e colocou em prática o Exército do Lula, um canal de engajamento e direcionamento digital, que viabilizou ações efetivas de apoiadores de Lula nas mídias sociais, retirando da extrema direita a primazia nesse universo. Pode-se admitir que Lula não se encontra em um mar de rosas, mas a situação melhorou bastante, tendo em vista que agora pode contar com a mobilização popular e com a alternativa das mídias sociais para enfrentar as forças adversas.
Ademais, a sua relevância como um líder progressista transcende atualmente as fronteiras nacionais. Ele se transformou em um símbolo de resistência e oposição à extrema direita em países da América Latina e da Europa. No primeiro caso, o muro de contenção brasileiro é significativo não só em função da retenção do bolsonarismo em território nacional, mas também pelo que representa de oposição ao imperialismo norte-americano. A estratégia trumpista de domínio da América Latina encontrou um ponto de resistência relevante, que, até então, parecia correr o risco de sucumbir ao poder imperialista dos EUA. O cenário mudou positivamente e, atualmente, Brasil, Uruguai e México se somam na contenção do espraiamento da extrema direita na região, além de injetarem ânimo na Argentina para a provável superação do mileísmo no próximo pleito presidencial, que deve ocorrer em 2027. Com a provável derrota de Trump nas eleições de meio de mandato nos EUA, previstas para novembro de 2026, o cenário pode tornar-se ainda mais favorável para a defesa das democracias liberais e para a articulação dos partidos que se encontram entre o centro e a esquerda do espectro político.
Não temos a ilusão de que pautas socialistas e a paz no mundo serão revigoradas e defendidas de forma intransigente, mas, no momento, é estratégico conter o avanço da extrema direita dentro e fora do Brasil, bem como os projetos genocidas e bélicos que ela alimenta. O sistema-mundo capitalista está em crise e tende a incentivar o espírito da necrofilia e as práticas da necropolítica mundo afora em função de sua sobrevivência. A resposta para isso não precisa ser necessariamente a do conformismo com as soluções escatológicas ou apocalípticas. O pressuposto humanista de que os homens podem e devem construir a sua própria história ainda não foi superado. Portanto, cabe a todos, que sabem não só utilizar a razão, mas também a força das emoções nas demonstrações de empatia e solidariedade, buscar soluções construtivas para o benefício dos povos. Vale dizer, articular-se em prol da concretização dos princípios da igualdade, equidade e justiça social. Ainda que isso possa ser uma conquista limitada dentro das cercanias de uma democracia liberal, é melhor que a política de exclusão e terra arrasada do nazifascismo, seja ele praticado no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.
A sorte foi lançada e, felizmente, as correntes progressistas brasileiras saíram vitoriosas. O desafio agora é direcionar esforços para salvar o esteio institucional brasileiro e permitir, na medida do possível, que os direitos constitucionais conquistados pelos cidadãos brasileiros jamais sejam vilipendiados. A responsabilidade de Lula é grande e pesada, mas ela é também a responsabilidade de cada brasileiro, que alimenta o compromisso com a verdadeira liberdade e com a construção de um futuro alvissareiro para as novas gerações. A juventude e os idosos se encontraram para construir o muro de contenção aos desmandos das elites e dos seus acólitos da extrema direita. Cabe ao governo que se estrutura não esquecer de quem esteve e está ao seu lado. A traição das expectativas pode ser um golpe fatal no ânimo e na esperança que se reacendeu. Não cabe mais a política de gabinete nem os arranjos em torno da manutenção de privilégios de minorias retrógadas e autoritárias. A história abriu uma porta de oportunidades para o governo que se inicia e, principalmente para Lula, que poderá encerrar a sua vida política com chave de ouro: como a liderança que salvou o Brasil de um desastre e deu ao mundo um exemplo magnífico de resistência. Porém, isso depende, necessariamente, do compromisso de não se afastar da população que o elegeu. Afinal, sem nos apegarmos a qualquer motivo religioso nem muito menos místico, vale considerar o dito latino: vox populi, vox dei.
