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Elites Autocráticas e Desesperança

José Mendes de Oliveira

07 de outubro de 2026​

“Não há distinção mais fundamental entre os homens, psicológica e moralmente, do que a entre os que amam a morte e os que amam a vida, entre os necrófilos e os biófolos. Isso não quer dizer que uma pessoa seja forçosamente necrófila ou biófila de todo. Há algumas totalmente dedicadas à morte, e estas são insanas. Há outras inteiramente devotadas à vida, e elas nos impressionam como tendo atingido a mais elevada meta de que o homem é capaz”.

 

(Erich Fromm)

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Há analistas sociais profícuos e com uma visão aguda da realidade que deveriam ser lidos e relidos inúmeras vezes. Eles se tornam, por sua sensibilidade e capacidade de desvendar as engrenagens da dinâmica social, referências atemporais para quem tem a pretensão de entender o mundo em que nos inserimos. Esse é, certamente, o caso de Florestan Fernandes. Entre inúmeras obras que o consagram como um cientista social de destaque no universo acadêmico brasileiro, merece destaque, neste momento, o livro A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica[1], mais precisamente em seu sétimo capítulo, onde o sociólogo caracteriza e analisa o modelo autocrático-burguês de transformação capitalista, ou seja, onde explicita a natureza autocrática e antirrevolucionária das classes burguesas e das elites dirigentes no Brasil.

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O motivo que nos leva ao destaque da obra de Florestan Fernandes não tem a ver com discurso panegírico ou com a necessidade de exaltação do autor, que do nosso ponto de vista merece em qualquer momento o incondicional reconhecimento pela contribuição à sociologia brasileira, mas com a adequação de seu conceito ao momento histórico atual do país. Mais uma vez, o Brasil ensaia o espetáculo de um processo eleitoral, que se particulariza por ser fortemente influenciado pelas artimanhas da extrema direita na versão desenhada a partir de 2016. Há de se aceitar a evidência que essa influência só tem sido possível devido às articulações das elites nacionais, que, neste pleito de 2026, orquestram sem sutilezas e com o apoio norte-americano o retorno do extremismo bolsonarista ao poder, não obstante as inúmeras evidências e provas do comportamento mafioso de seus representantes.

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O que estamos assistindo novamente no cenário político-eleitoral brasileiro é a ação desbragada das classes burguesas e das elites dirigentes, principalmente por intermédio dos braços midiáticos da imprensa hegemônica, que operam segundo o autocratismo que lhe é peculiar, ou seja, como evidenciou Florestan Fernandes em suas análises, trata-se de classes e de segmentos tradicionais antidemocráticos, insensíveis aos dilemas sociais do país e profundamente antinacionalistas, que se adaptam às condições de um capitalismo periférico e dependente. As articulações não são inéditas e se repetem de forma ciclotímica na história brasileira. Os grupos dominantes de hoje descendem dos mesmos que patrocinaram inúmeros retrocessos econômicos, políticos e sociais no país desde o seu nascedouro. O conjunto das elites inescrupulosas joga de acordo com seus interesses plutocráticos e se necessário lança mão das alternativas mais tenebrosas, que abrangem desde os conhecidos golpes de Estado até as alianças com o crime organizado.

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O cenário atual talvez seja muito mais corrosivo e preocupante, quando comparado aos assaltos anteriores, a exemplo do longo período em que o país foi submetido a uma ditadura militar, porque hoje há incontestavelmente, por mais irracional que possa parecer, a disposição em destruir o esteio institucional brasileiro em função da crença de que, dentro do caos, é possível a manutenção do poder político e econômico. Não causa mais surpresa a evidência de que a política da terra arrasada ou a opção pelo anarcocapitalismo mileísta é a tradução do desejo de um mundo sem regras para viabilizar qualquer tipo de negócio. Esse comportamento, à semelhança de outros do passado, responde positivamente aos interesses de potências imperialistas como os EUA, que podem contar com a vilania e com o complexo de vira-lata dessas elites em função da manutenção de sua hegemonia e acesso fácil aos recursos estratégicos do país.

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Na impossibilidade de recorrer aos golpes militares tradicionais, as elites brasileiras e a mídia hegemônica que as representa apelam para o que há de pior na política nacional, afiançando em 2026 uma candidatura sobre a qual recai a suspeita de crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção ativa e passiva, além de evasão de divisas, de acordo com inquéritos conduzidos pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal[2]. Não há ruborização ou acanhamento no abraço ao bolsonarismo e seus mal feitos, porque é da natureza desses segmentos sociais frustrar toda e qualquer promessa de futuro que possa colocar em questionamento os seus privilégios. A autocracia das classes burguesas e das elites dirigentes do país é revelada não só no uso da força militar e policial sempre que possível, mas também no papel que desempenham como patrocinadores do atraso do país, mantendo-se a lógica de um sistema econômico periférico que se alimenta da injustiça e exclusão social.

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Frente à pauperização dos quadros políticos e o agravamento da despolitização do cidadão, o avanço da extrema direita tem representado um perigo permanente, sobretudo quando se observa que o radicalismo nazifascista se espraia no ocidente como se quisesse reviver os horrores das décadas de trinta e quarenta do último século. A naturalização das guerras e dos genocídios tem tornado o mundo indiferente à presença de déspotas e sanguinários na condução de governos e na deliberada destruição dos organismos de sustentação da paz mundial. É óbvio que a crise do sistema-mundo capitalista, e particularmente a perda da hegemonia norte-americana, contribui para o acirramento dos ânimos dos extremistas. A figura de Donald Trump é expressiva para a articulação da extrema direita no mundo e dentro do Brasil, não só devido ao suporte financeiro, às ameaças tarifárias, às guerras coloridas e militares, mas também à promessa e garantia de lucro na distribuição do butim.

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As elites brasileiras antinacionalistas e gananciosas jogam sempre para ganhar, ainda que isso implique colocar o país à venda no balcão dos negócios espúrios. Escorados na hipocrisia de um discurso liberal e patriótico, os vendilhões publicizam a imagem de democratas, defensores da livre iniciativa e guardiães da pátria, quando em verdade espoliam o país como corsários e mercenários. Não haverá futuro para o Brasil se essas elites continuarem atuantes, com ou sem o apoio do imperialismo decadente norte-americano, principalmente a franja mais reacionária do agronegócio. Houve, em algum momento da história, a percepção talvez míope de que o Brasil urbano superaria o Brasil rural, mas o mapa do primeiro turno das eleições de 2026 é muito ilustrativo na indicação de que o país permanece na mão de ruralistas, que hoje delineiam um cinturão agrícola e pecuário entre as Regiões Sul e Norte do país, passando por áreas significativas do Sudeste.

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O estado de São Paulo, que já recebeu a alcunha de locomotiva do país[3], atualmente é um reduto de reacionários sem visão de futuro e, juntamente com Minas Gerais, ainda guarda na lembrança a estrutura das casas grandes e das senzalas. O Rio de Janeiro cumpre, por sua vez, o papel de incubadora e de exportador da lógica das milícias e do crime organizado, que, hoje, invade e disputa o domínio das instituições públicas dentro e fora da esfera estadual. Tudo isso realizado de forma regular por intermédio da democracia e do voto, que as elites demonizam e repudiam sempre que necessário. A situação atual é crítica e evidencia a morte da esperança. Provavelmente não haverá mais futuro para o país, caso se cumpra a vitória da barbárie no segundo turno das eleições. O que se encontra em jogo é a sobrevivência do que resta da Constituição de 1988 e os direitos básicos dos cidadãos brasileiros. O retrocesso será enorme e a possibilidade de recuperação imprevisível.

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Ironicamente e de forma ciclotímica voltamos ao antigo prognóstico do Efeito Orloff: o país será a Argentina amanhã e talvez muito piorada. Pode-se aguardar uma onda feroz de privatizações e de desregulamentações, congelamento de aposentadorias, retração de salários e remunerações, aumento do preço de alimentos, crescimento vertiginoso da pobreza, dilapidação dos recursos naturais e destruição do meio ambiente. O bolsonarismo instalado no poder terá, desta vez, o apoio abrangente de um parlamento majoritariamente de extrema direita para colocar em prática suas vontades e maldades. Talvez passemos a amargar indicadores vergonhosos em planilhas de organismos internacionais e já não teremos quem possa denunciar, criticar ou propor alternativas. As esquerdas autointituladas progressistas estão sendo esmagadas sem piedade e, provavelmente, em breve, o bolsonarismo já não terá a quem acusar e atacar nas mídias sociais. Criarão inimigos entre si? Quem sabe?

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Outro aspecto revelador, quando se observa o mapa do primeiro turno e a avalanche do voto fascistóide, é o de que o domínio do agronegócio permitiu a construção de uma cultura com padrões éticos e estéticos muito específicos, que permite a combinação ou o sincretismo do rural com o urbano e do tradicional com o moderno. Talvez o exemplo mais forte dessa ocorrência seja, além do uso expansivo do celular e das mídias sociais, o sertanejo brega que serve de trilha sonora para as empregadas domésticas, mas também embala as festinhas da meninada dos estratos medianos, que sonha em ser latifundiária ou youtuber influente e rico. O mau gosto tornou-se um padrão de referência, bem como o culto a burrice uma alternativa de afirmação para quem se julga inteligente e infalível por amealhar seguidores e cliques nas referidas mídias. O buraco em que se meteu o país é profundo e tenebroso. É difícil dizer como e quando será possível superar essa situação, sobretudo por que ela se imbrica com a conjuntura mais ampla de um sistema econômico mundial que agoniza.

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Os brasileiros afoitos em melhorar a situação econômica e desiludidos com a política estão radicalizando, mas não no sentido de sua emancipação e da verdadeira transformação de seu mundo. Como gado que caminha para o matadouro, colocam o pescoço na guilhotina e esperam no corte das próprias cabeças o irromper de um mundo melhor. A situação é tragicômica, porque não se trata de um pesadelo que pressupõe um despertar, mas trata-se de uma viagem mortífera para a qual não haverá retorno. Mais uma vez, as elites autocráticas conseguem convencer seus vassalos de que a vida é boa sob grilhões e chibata. A coisa toda transpira sadomasoquismo e um nível de alienação incomensurável. O sentimento do ódio, tão útil aos propósitos nazifascistas, espraiou-se de forma contaminante e convincente pela sociedade ao ponto de os sujeitos não conseguirem explicar sequer por que odeiam e o que exatamente odeiam. O ódio tornou-se, como diria Erich Fromm, o estímulo para a construção de uma ordem social pautada pela necrofilia[4].

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Esse estado de radicalização da destruição combina bem com as atrofias psicológicas do neopentecostalismo, que pressupõe o armagedon ou o apocalipse como promessa para a conquista do paraíso. Embalados por essas insanidades, uma parcela dos brasileiros conduz o país todo ao cadafalso e compromete o futuro de gerações. Como sair dessa encalacrada? Ainda que se possa apontar muitas tibiezas do progressismo, que um dia já se definiu como esquerda, não há outra saída a não ser apostar, com o espírito da urgência de um náufrago, na reeleição de Lula. Ainda que as possibilidades da governabilidade sejam ainda mais desafiadoras, frente a avalanche da extrema direita no parlamento, a única possibilidade é construir um muro de contenção para evitar, ou pelo menos adiar, a hecatombe anunciada. Embora seja o recurso de uma esperança combalida, quase derrotada, não há outra alternativa. E parece ser não só lógico, mas necessário, que esse muro seja erguido com a radicalidade de um combate, sem as fragilidades do discurso conservador da união e da reconstrução, que não ecoa nos ouvidos e mentes de quem já foi abduzido pelo nazifascismo.

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O momento irá requerer inteligência política e, quer queira quer não, a formação de algum tipo de frente que possa reunir todos aqueles setores e agentes sociais que se sentem ameaçados pela hegemonia bolsonarista. Caso Lula consiga, mesmo que a duras penas, passar no segundo turno, enfrentará a radicalidade de uma extrema direita ideológica e fortemente organizada como partido e bancada no parlamento. Entretanto, o desafio neste momento em que o jogo ainda não terminou, é arregimentar votos, demonstrando aos indecisos, decepcionados e revoltados que o amanhã das trevas será muito pior sem um muro de contenção. Não há outra saída: é a barbárie focada na destruição e na morte ou a reconquista de uma esperança voltada para a vida. O que os partidos progressistas não conseguiram fazer até o momento, terão que fazer em curtíssimo tempo, ou seja, demonstrar para os desiludidos que há uma possibilidade de futuro e que essa possibilidade pode ser construída com um projeto nacional que garanta à sociedade brasileira o desenvolvimento sonhado, com soberania, com determinação, inclusão social e prosperidade. Enfim: alea jacta est!

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[1] Florestan Fernandes. A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica. São Paulo. Editora Contracorrente, 2020.

[2] Conferir: https://www.metropoles.com/colunas/matheus-leitao/veja-os-quatro-crimes-pelos-quais-flavio-bolsonaro-e-investigado (11/09/2026 - 10h39).

[3] Atribui-se a ideia ao sanitarista Arthur Neiva (1880-1943), que teria defendido o papel hegemônico de São Paulo na federação em seus ensaios, produzidos durante a década de 1930, sobre a conjuntura econômica e política e a questão do estado nacional.

[4] Erich Fromm. O Coração do Homem: Seu Gênio para o Bem e para o Mal. 4ed. Rio de Janeiro. Zahar, 1974 (p. 39-67).

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